segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Rosa


Quando procurei ser já não pude porque já não era. Nada é mais efêmero que um cachorro. O que é um cachorro? Um animal que vive de sortes. Basta a falta desta e ele fica decrépito e morre de maneira lamentável. E ninguém jamais soube que ele existiu. Aristóteles já falava de certos insetos que havia no rio Hipanis que viviam somente um dia. Mas de todas as coisas a mais efêmera é sem dúvida o Homem. E o fato de ser um ser de tanta importância, obra-prima de Deus, aumenta mais esse sentido. Quão bem estruturado é um crânio, sólidos ossos protegendo a matéria pensante, e tão fácil ele se esmigalha. Uma topada que nos faça bater com a testa em algum canto; uma leve friagem, um rocio, e deixamos tudo por fazer; partimos e se temos sorte damos adeus para quem amamos; ouvimos eles nos mentirem dizendo que ficarão bem, pois eles sabem que nossa preocupação é como eles vão se virar agora, principalmente aqueles mais afastados das ternuras, dos calores... As mais belas coisas têm um curto destino. Há pessoas que são como rosas, e por isso vivem apenas o que uma rosa vive: o espaço de uma manhã. Os que ficam, ficam? Há um limite até para as lágrimas que alguém pode derramar. Sempre há um sentimento de culpa que sempre vem tarde demais e por isso não há absolvição. É num momento limite que vemos com olhos que não temos que nada importa. Quando procurei ser já não pude porque já não era. A arte sempre é um refúgio que procuro. Duas passagens do filme “As Horas” me tocaram, uma me emocionando e a outra me abrindo os olhos: 1ª: o marido de Virgínia Woolf, ouvindo sempre ela falando que Miss Dollawey tinha que morrer, lhe pergunta por que alguém tem que morrer, e ela lhe responde “Alguém tem que morrer para que os outros ao seu redor valorizem a vida”; 2ª: a personagem Clarissa, lembrando o passado diz para a filha “Nos encontramos naquele verão e foi tudo tão belo e maravilhoso. E fiquei pensando no futuro, preocupada em manter aquele começo de felicidade. Eu não me dei conta de que não era o começo da felicidade; era a própria felicidade.” Ela quis dizer que quando estamos numa fase maravilhosa de nossa vida, pensamos que é apenas o começo e que devemos nos esforçar para manter isso, para sermos felizes no futuro. Mal sabemos que isso não é um investimento que possamos amontoar o bastante para que no futuro tenhamos de sobra. Esses momentos são a própria felicidade, já, na exata ocasião em que acontecem. E se perdem na maioria das vezes para nunca mais voltar. O passado nos entretém com suas filosofias e o futuro nos ilude com esperanças, mas o que existe é o presente, duro e amargo; é um comprimido que temos que engolir sem água, pois ou se bebe ou se chora; não dá para ter as duas coisas. Eu já sequei todas as minhas lágrimas, então terei que engolir a seco o resto dessa minha vida. As palavras dos sábios dizem que não devemos dar importância a essa vida, pois quando morrermos não haverá lembrança de quem fomos e a vida continuará seu curso. Mas eu desafio essa tola saberia. Nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer. Nunca esquecerei quem esqueceu suas dores para suavizar as minhas. Isso ficou marcado na minha vida como um antigo filme em preto e branco o qual eu pus o título “O Dia do Desastre”. Um mundo tão grande e estou sozinho... Quando procurei ser já não pude porque já não era.

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