quarta-feira, 23 de julho de 2008

Uma dica.





















Estas são imagens da exposição que está acontecendo no Instituto Cultural Banco Real, sobre cordel, que inclui obras em barro e madeira. É tudo muito bonito, com as paredes forradas de cordel. O Instituto fica no Recife Antigo em frente ao Marco Zero. Não paga pra olhar como na FENEART; Então vá ver.






quinta-feira, 3 de julho de 2008

Este poema, aconteceu comigo; por isso mesmo eu o escrevi. O título fica no final mesmo e a foto é do próprio jardim, tirada por mim, no CAC.


Quando me prometeste teu amor, naquele jardim,
Fui!; não fostes!
Esperei-te em devaneios,
O coração sofrendo
As dores da ansiedade.
Os pensamentos abreviaram em vã fantasia tua vinda:
Teu perfume me envolvendo, teu hálito me estremecendo os lábios sequiosos;
Teus lábios osculando meu pescoço tão suavemente que só o senti porque soube o que fazias;
Tua mão quente na minha que tremia.
Uma musica belíssima e silente tomou-me
Os ouvidos e quase fui tomado de um consciente delíquio.
Meu corpo, numa dualidade de vigor e moleza,
Agiu como a flor que no auge de ser flor, emana gotas
De dulcíssimo néctar, convidando ao deleite a abelha enamorada.
Sentados que estávamos, teu peito roçava meu ombro
E tua mão a apoiastes na minha coxa,
A ponta dos dedos no , numa massagem sem movimento.
A penugem acariciando a face, beijaste-me
Com doçura e minhas lágrimas umedeceram
Teus lábios – o amor ainda mais forte que o desejo.
Nunca fostes!
Só o tempo correu apressado, sazonando tudo.
Um apaixonado casal de rouxinóis que acabava de despertar,
Não cantou seus amores
Para não me constranger.
Flores pendentes dum ramo de esmeraldas
Preparavam-se para o sono,
Escondendo o rosto do rocio.
Um cacho de borboletas, de maduro caiu no chão.
Fiquei indeciso entre continuar chorando,
Ir embora, morrer ou apanhar algumas.

Malograda é a esperança.

Fases líquidas da vida do homem:


Do you remember?


O que o seu horóscopo aconselha para hoje?


Nada como a amizade


Um poeminha dos que escrevo quando enjôo da vida...


Pra começar não me venham com conversa sobre o belo, pois não sou utópico.
"Amor" se assim denominam a Necessidade, não me apresentem;
Não contem piada, basta viver numa;
Digamos que a vida seja mesmo maravilhosa como alguns querem;
Digamos que até seja uma dádiva (eu me prendo pra não rir);
Nada disso me diz respeito;
Sou alheio a tudo que não seja a palavra muda e o eco sem retorno;
Acerbo destino o de ter de ser feliz abrigando uma alma tão remota e triste.
Derramou-se há muitos séculos a gota única de contentamento que inundava meu ser;
Evaporou-se na aridez do terreno;
Era o contentamento de ainda não existir.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uma amostra de porquê ler a Divina Comédia:








O trecho fala da história de um amor adúltero que é interrompido pela vingança do marido traído: Francesca, casada com Lanceotto Malatesta, ama o seu cunhado, Paolo Malatesta que lhe corresponde o seu amor. Uma noite, trocando carícias e juras de amor, são surpreendidos pelo marido traído que os mata.Quando Dante e a sombra de Virgílio passeiam pelo círculo do inferno destinado "àqueles que trocaram a razão pela luxúria", cruzam-se com aquele par "leve ao vento" que sumária, poética e tristemente lhes relata a sua desventura:




“Neste lugar escuro onde eu me encontrava, o som das vozes melancólicas se assemelhava ao assobio do mar durante uma grande tormenta. Os tristes sons emanavam de um enorme redemoinho. Eram almas sofredoras, sacudidas pelo vento que nunca cessava. Entendi que era o castigo pela transgressão da carne, que desafia a razão, e a submete à sua vontade.
No escuro vento vi várias sombras que passavam se lamentando [...].
Poeta - eu falei - eu gostaria, se for possível, de falar com aqueles dois, unidos, que tão leves parecem ser ao vento.
Espera - respondeu -, em breve estarão próximos de nós, e quando a fúria do vento diminuir, peça, pelo amor que os conduz, que eles virão.
Então, quando a tormenta cedeu um pouco, eu chamei:
Ó almas sofridas, falai conosco, se isto for permitido! Elas ouviram, entenderam meu pedido. Deixaram o bando onde estavam as outras e se aproximaram. Uma delas falou:
Ó ser gracioso e benigno, o que desejares ouvir ou falar conosco, nós ouviremos e falaremos, se o vento permitir. Nasci na terra onde o Pó deságua. Amor, que ao coração gentil logo se prende, tomou este aqui, pela beleza da pessoa que de mim foi levada, e o modo ainda me ofende. Amor, que a nenhum amado amar perdoa, prendeu-me, pelo seu desejo com tanta força que, como vês, ele ainda não me abandona. Amor nos conduziu a uma só morte. Caína aguarda aquele que tirou as nossas vidas.
Ao ouvir esse lamento, baixei o rosto, e permaneci assim, até Virgílio me despertar. Voltei novamente àquele casal, e perguntei: "

Canto V, 121:
"Francesca, o teu martírio me traz lágrimas aos olhos, mas dize-me, como sucedeu que dos ingênuos enleios o amor passasse a proibidos anseios?"

E ela “Não existe dor mais profunda do que a ventura relembrar na desventura, verdade que o teu guia bem conhece. Mas se pões empenho no conhecer a história do nosso amor fatal, procederei como aquele que, chorando, narra. Líamos um dia – mero passatempo – o relato de como Lancelot resultara vencido pelo amor. Estávamos sós, desarmados de malícia. Por vezes, nossos olhares, se encontrado, fizeram suspender a leitura e mudar a cor das faces. Um trecho nos fez sucumbir: ao lermos como a ansiante amada fora beijada pelo febril amante, este que de mim jamais se aparta, todo a tremer, beijou-me a boca. Culpados pois, o livro e o seu autor – eis que, aquele dia já não lemos mais.”

"Enquanto uma alma contava a sua história triste, a outra chorava sem parar ao seu lado, e eu, comovido de piedade e dor, desmaiei, e caí como um corpo morto, cai”.






Bem, maravilhoso, não é? É uma versão em prosa. É genial Francesca culpar o livro e o sue autor, e depois dizer que aquele dia já não leram mais. Notem que estavam lendo um trecho dos amores de Lancelot e Guinévere. Lancelot, braço direito do rei Arthur e que o traiu com Ginévere, a rainha. Maravilha.

Meu soneto favorito de Augusto dos Anjos:





Psicologia de um vencido


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!